terça-feira, 10 de julho de 2012


"O erotismo é conceder ao corpo os prestígios do espírito."
Georges Perros


     Tinhas chegado, de casaco de peles envolto em teu corpo, à porta do meu quarto naquela noite em que a lua gritava-se dona do céu. Horas antes de te abrir a porta, havíamos dançado o tango naquele bar tão característico, de tons castanho-avermelhados, de gente que cheirava a gente dali. Dançaste vigorosamente com aquele homem numa profunda e intensa dialéctica dependência-domínio em que a rosa em teus lábios parecia assumir o conflito estético entre líbido e agressividade. Rusticidade e serenidade dançavam sincronicamente em poesia num crescendo confesso de pulsão sexual. Os meus olhos bravejavam quietos, a minha pele lacrimejava esforços de contensão e tu... Tu parecias tão alheia, tão circunscrita aos teus movimentos. Quando te levei ao teu quarto de hotel, para lá descansares, eram três da manhã e Buenos Aires dormia debaixo de um tempo húmido negro-quente que sufocava a racionalidade.
     Quando te abri a porta, poderia ter considerado que te estivesses a sentir mal, mas os teus olhos não abriam margem para dúvidas. Deles, vozes canibais se erguiam como gritos líricos de uma vontade atroz de me consumires. Fechaste-os uma última vez e despiste o casaco, sem que debaixo dele estivesse qualquer outra peça de roupa. A falência da homeostase racional-emocional dá-se por consumada perante beijos e mãos que se tocam e trocam numa entropia de movimentos perdidos. O suor escorria-te pela cara, pelos lábios, enquanto respiravas fundo. Percorria o teu corpo com as minhas mãos, verdadeiras escrivãs de sensações, numa inconfessa insaciabilidade de paixão. A lógica autista apoderava-se da minha mente, que só através toques e sensações poderia contactar com a realidade. Emanavam de ti, assim, líricas vibrações, desmembrando poesia sobre o corpo e o tango dançou-se, doravante, sobre os lençóis brancos daquele quarto de hotel. Éramos vodka e whisky na deflagração de uma noite por nós embriagada, enquanto, perdidos do mundo, trocávamos as mãos numa conjuração de pecados que havia de nos levar ao inferno.
     Depois dessa noite, nunca, nunca mais te vi. Quando acordaste, eu já não estava mais do teu lado.

Afonso Costa

1 comentário:

Paula disse...

mais que retratar momentos. retrataste os sentimentos, o desejo, o erotismo...

espectacular! (: