quarta-feira, 24 de julho de 2019



Minhas mãos esguias asseiam-me os olhos dormentes,
Deitado sobre um leito de crisântemos dolentes
Ramagem absorta sob sonhos destruídos.
E os meus olhos esbravejam contra rios contidos.

São versos tristes de quem não sabe ser feliz
Erguidos pelos braços trémulos de um petiz,
Como pedaços de vida morta, ao vento mofento
Ah! Foi-se tudo... Foi-se tudo num lento perecimento.

Tropeço em sonhos verdes no impudor
De não saber que nada é nosso.
Entreguei-me ao pássaro que voou
Num final de tarde caloroso.

E permaneço sombra vaga de ti,
Alimentando-me de sonhos de poetas
Dobrados na curva d’aquela estrada
Por onde perdi a alma que te entreguei.

Afonso Arribança

sábado, 19 de janeiro de 2019



    O ser humano só vê o que está preparado para compreender. Mas há certos aspectos de compreensão urgente.

    Ninguém nasceu incompleto e, como tal, ninguém tem uma alma gémea. Esse pressuposto leva a que se pense que se uma pessoa não serviu, há-de chegar “a tal” e, de facto, as coisas não funcionam assim. Em primeiro lugar, porque nascemos completos e, apenas por uma questão social/emocional, ter alguém acrescenta, mas não completa. Em segundo, se uma pessoa não serviu, mas por acaso podia ter servido, é porque alguma das duas partes, ou mesmo as duas, não se esforçaram para que tal acontecesse e isso pode repetir-se até ao fim da vida. As relações não são fáceis. O ser humano não é simples. E, por fim, o amor não é fácil. Requer trabalho, requer compreensão, cedências, requer profundidade de pensamento e de sentimento. E nada disso surge do vazio, mas de um complexo trabalho de entrega.

Muitas das pessoas que passam na nossa vida, e que por acaso não deu certo, teriam dado certo. Muitas vezes não é a falta de química, não é por não ser "a tal", mas por um excesso de egoísmo, por um défice de vontade de trabalhar em conjunto, por uma falta de ambição em tornar aquela pessoa "Na" tal.

    As pessoas passam uma vida a queixar-se de que não têm sorte nas relações ou de que estão sozinhas e assim vão terminar a sua vida. Será que a culpa disso não está em cada um de nós? Presos ao egoísmo e à necessidade de nos afastarmos do que nos exige trabalho, atiramos borda fora oportunidades que poderiam levar-nos a conhecer a nossa “alma gémea”. Presos à impaciência, perdemos e ignoramos pessoas que fazem tudo por nós. A verdade é só uma: não escolhemos de quem gostamos. Mas podemos escolher se queremos estar mais abertos ou mais fechados a que isso aconteça. E isso determina toda a nossa vida amorosa. Basta começar a olhar para a alma daquela pessoa. Basta perdermos o medo, colocar-nos frente-a-frente com ela e, parando o tempo mentalmente, olhar nos olhos dela; procurar onde a admiramos, procurar o que nela nos faz sentir bem, parar de pensar no mundo lá fora, largar a mochila com o peso da nossa vida e das nossas preocupações e tentar ir ao encontro daquela alma.

    Por fim, gostar/amar não é querer TER a outra pessoa. É querer SER com a outra pessoa. Muito menos é achar que gostamos de alguém e, uns meses depois, já não sentir nada. Quando gostamos, esse sentimento perdura e resiste a rancores e ressentimentos. Quem ama, não quer obrigar a outra pessoa a ser sua. Quer, acima de tudo, que essa pessoa seja feliz e faz tudo por isso, mesmo que nada lhe seja retribuído. Quem gosta, gosta muito tempo. Muito tempo mesmo.

    Eu amo a mesma pessoa há quase um ano e sei que podíamos ter sido tudo juntos, mas quando uma das partes se fecha a essa oportunidade, mesmo que pudesse dar tudo certo, nada vai dar certo. Quando a outra parte decide afastar-se ao invés de ir ao encontro, tudo começa a dar certo para o fim do que poderia ter sido muito mais. Como eu, milhões de outros seres humanos estão sós. Mas se forem como eu, tenho a certeza que o desejo não está em ter uma relação amorosa, porque a verdade é que nós somos seres completos e não precisamos de ninguém que nos complete. Mas se gostamos de alguém, necessariamente queremos SER mais, junto dessa pessoa. E vamos continuar a querer durante muito tempo porque se, por um lado, nos abrimos à possibilidade de gostar daquela pessoa e isso aconteceu, por outro, não controlamos os sentimentos que surgiram. E que vão permanecer, porque quando ele surge, se for verdadeiro, ganha raízes e só encontra um caminho: declarar-se e expressar-se em palavras, em atitudes e, por vezes, em doloroso silêncio.

Afonso Arribança

quarta-feira, 31 de outubro de 2018


    Agora que o Verão terminou e a chuva cai com a típica pujança de um início de outono, voltam as memórias que caem como folhas secas de árvore. Impossível controlá-las, improvável esquecê-las. O tempo frio recorda-me dos momentos que, juntos, contemplávamos a dança entre a música do carro e as gotas que caíam nos vidros. O tempo frio traz recordações, mas traz também a saudade, a tristeza e a não-conformação perante os factos consumados.

    Quando surgiram os primeiros sentimentos por ti, não fui eu que os chamei. Tampouco fui eu que os desenhei no meu coração. Mas quando sentimos algo por alguém, é certo que estamos abertos a que isso aconteça. E, não obstante o facto de que tu estavas mais aberto a que isso acontecesse do que eu, o destino decidiu pregar-me uma partida e reverter a situação. Porque quando decidi dar-te uma oportunidade de me provares que valias a pena; quando tomei a decisão de quebrar o muro defensivo que me impedia de aprofundar algo com quem quer que fosse, eu olhei nos teus olhos e, sem defesa possível da minha parte, os meus brilharam por ti.

    O tempo frio trouxe com ele dúvidas, questões que se tornam tóxicas dia após dia. Porque eu sei que tínhamos tudo para dar certo. Porque eu sei que tu sabes disso. E, acima de tudo, porque se algo não deu certo foi porque te fechaste. Não se controlam os sentimentos, mas controla-se a sensibilidade; e quem não se predispõe à sensbilidade - porque enfraquece, porque amedronta e provoca a sensação de descontrolo - não se disponibiliza à sorte ou azar de se apaixonar. E é, neste confronto de ideias, que me arrebato em questões que impedem que eu aceite os factos que tu impuseste. Porque tínhamos e temos tudo para dar certo e tu fechaste-te atrás de muralhas que eu não consigo superar.

    Se ao menos destruísses essa muralha… Se ao menos percebesses que, de todas as pessoas neste mundo, existe alguém que te quer fazer a pessoa mais feliz do mundo. Talvez pudéssemos mesmo ser as pessoas mais felizes deste mundo.

    Se ao menos te lembrasses de como eu te fazia feliz e de como isso me bastava… De como o meu olhar te transtornava e confortava ao mesmo tempo… De como a rotina, os sonhos e os encontros quando estávamos juntos nos alimentava de sorrisos…

    Se te lembrares de tudo isso, quero que te lembres, também, que por muito idiota que seja a minha forma de sentir o mundo, as pessoas e a vida neste século XXI, também sou o mesmo idiota que continua aqui a sonhar com o momento em que decidas deixar de ser egoísta, por uma vez na tua vida, e nos dês a oportunidade que ambos estamos a desperdiçar.

Afonso Arribança

quinta-feira, 16 de agosto de 2018



    Há toda uma existência antes de aprendermos a finitude das coisas. Até realmente percebermos que tudo ou quase tudo tem um fim, a vida é-nos fácil de viver. Na verdade, nem tudo tem um fim, porque há coisas, situações ou realidades que apenas se transformam; mas o que é a transformação senão o fim de algo que nos era familiar para vir a ser algo novo?

    Quando e enquanto te conheci, não houve um único momento em que eu pensasse no fim. Na minha humilde e ingénua consciência, estávamos a construir algo que perduraria, no tempo e no espaço, porque cada um daqueles momentos era bom demais para se perderem. Hoje sinto que cada um deles estão a apagar-se como tinta em papel molhado. E a transformação por que ambos passámos e pela qual a nossa conexão passou, deixou-nos também diferentes. Hoje olho para ti e não sei mais quem és, mas de uma coisa eu ainda sei. Sei que tenho saudades... E que cada vez que olho para as estrelas ainda nos vejo em cima daquela mesa de madeira no topo da serra. E que cada vez que olho para uma oliveira, sou invadido por uma nostalgia tremenda daquele momento no campo de oliveiras. Foi nesse momento que me beijaste e me disseste “Adoro-te”, pela primeira e última vez. E essas palavras cravam-se na minha mente a cada segundo que me dou conta da tua ausência. Porque não foi na ausência que eu investi. Porque foi na tua presença que apostei nestes últimos seis meses da minha curta vida. E era na continuidade que eu acreditava. Porque na última vez que os nossos lábios se tocaram, sequei as tuas lágrimas e fiz-te ver o quão importante é a tua felicidade para mim. Nessa noite pediste-me para ficar contigo. E eu não fiquei... Se talvez tivesse ficado.

    Ausência.

    Fechei os olhos e quando os abri, verifiquei o óbvio. Não tinha nenhuma mensagem tua. Chegámos a falar durante todo o dia, todos os dias, mas hoje, desde há algum tempo para cá, não tenho uma mensagem tua. Não sei se estás bem e tu não sabes também como eu estou. E o mais triste no meio das saudades, da nostalgia e da dor da tua ausência, é mesmo a perda dos laços, nos quais se envolvia a protecção, a preocupação, o desenho de simples sorrisos em momentos felizes ou o colo que ambos nos demos em momentos menos bons. E é dessa pessoa, que eu não sei onde se perdeu, que eu sinto falta.

    Mas meu amor... Sempre que ouvir Silva ou MPB lembrar-me-ei dessa pessoa que sinto falta, porque acredito que ela ainda existe. E lembrar-me-ei daquele teu sorriso, tão grande quanto as saudades que tenho para te entregar da próxima vez que te vir.

Afonso Arribança