sexta-feira, 11 de maio de 2018


"Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!"
Florbela Espanca


    Quando, há uns anos, decidi aventurar-me sozinho pelas dunas de um deserto colado a quilómetros de praias sem quaisquer vestígios do ser humano, foi-me oferecida a oportunidade de sentir na pele os mais fortes sentimentos que alguém pode sentir. Quase no fim do meu trajecto de ida, a sensação de paz que me invadia e me desconcertava ao mesmo tempo foi interrompida. Fui apanhado desprevenido por uma tempestade que surgiu poucos minutos depois das primeiras nuvens, que pareciam inicialmente inofensivas. Fortes chuvas e vento aliavam-se a relâmpagos, à areia que voava pelo ar e às monstruosas ondas que rebentavam à beira-mar. Doía-me a pele cortava pela areia. Corria contra o vento, de olhos fechados, confiando a minha direcção ao instinto e aos sentidos, que pela proximidade ao mar, me orientavam. Tive medo e senti remorsos por ter ido sem avisar ninguém. Mas, essencialmente, senti-me vivo.

    Foi, quando por momentos desisti de lutar contra o vento, que me agarrei à pedra em forma de coração que me ofereceste e me deixei cair na areia, a chorar. No meio de toda aquela revolta da natureza, a dualidade medo-fascínio percorria-me as veias e foi nesse momento que me senti mais vivo que nunca. Levantei-me e gritei com todas as forças o meu amor por ti, eternizando na minha memória um dos mais perfeitos momentos que pude viver. A lamechice e o ridículo, com que rotulamos o amor depois de se estabelecer alguma distância temporal, não existe nestes momentos, não tem lugar no presente. O que somos, somos. O que sentimos, sentimos. E foi essa expressão de sentimento que imortalizou uma das mais bonitas histórias da minha vida. Cada um seguiu o seu caminho, mas o amor é eterno enquanto houver lembranças, e será sempre real enquanto visitarmos os lugares por onde passámos.

Afonso Arribança

sexta-feira, 27 de abril de 2018


"Que a gente possa ser mais irmão, mais amigo, mais filho e mais pai ou mãe, mais humano, mais simples, mais desejoso de ser e fazer feliz."
Lya Luft


    Nove anos depois de ter nascido, soube que iria ter um irmão. A minha reacção, infelizmente, não foi a melhor. Habituado a ser filho, sobrinho e neto único, a sensação de medo de perda foi súbita. O temor, tão erróneo, mas tão inconsciente, assente na possibilidade de perder a atenção e a devoção da minha família por mim, era tão grande que a tua chegada era sentida como uma ameaça. Pudesse eu saber, nesse instante, que o que iria perder, iria ganhar a dobrar. Pudesse eu saber, no dia daquela revelação, que melhor do qualquer outra coisa neste mundo, é ter um irmão como tu. Pudesse eu saber que serias tu, mais tarde, uma das pessoa mais importante da minha vida.

    Quando nasceste, rapidamente me rendi aos anseios de poder falar e brincar contigo, partilhar brinquedos, ideias, loucuras de criança. Era tão pequeno e inocente que não percebia que não podias, ainda, seguir-me nas brincadeiras. Pude, entretanto, acompanhar os teus primeiros passos, as tuas primeiras palavras, as tuas quedas, os teus choros mais irritantes e os teus sorrisos mais encantadores. E hoje olho pra trás, não com saudades do passado, mas com o maior orgulho na trajetória que vivemos. Não dei os primeiros passos contigo e não proferi as primeiras palavras do teu lado, mas os primeiros passos em direcção à verdadeira felicidade dei-os contigo, porque foi contigo e com a tua energia que aprendi também eu a ser feliz. E há pessoas que podem não perceber isso, porque nunca viverão aquilo que nós passámos enquanto família.

    O dia em que soube que a tua vida corria perigo foi, talvez, o pior dia da minha vida. A notícia caiu que nem uma bomba na minha cabeça. Lembro-me de correr para o meu quarto e deitar-me na prateleira de baixo da minha estante, o último lugar onde havias estado antes de ires para o hospital. Mantive-me horas no mesmo sítio sem conseguir conter as lágrimas e a pedir a Deus que não me tirasse o meu irmão. Foram cinco anos de luta que mudaram a nossa família e que, por muito terrível que tenha sido, talvez nos faça valorizar aspectos da vida que de outra forma não valorizaríamos. Saíste vencedor de uma luta com um final improvável, como sais de todas as dificuldades que se te atravessam na frente. É nesta tua força de viver, é na tua alegria contagiante, na forma como, energicamente, te levantas todas as manhãs, a cantar e a dançar, na forma como encaras os problemas (que, na verdade, pra ti nunca o são), que deposito o meu orgulho, a minha devoção e o meu amor por ti.

Não há ninguém neste mundo que possa partilhar o mesmo gosto musical, por inteiro, como nós os dois. Não há ninguém que possa partilhar o gosto pelos mesmos filmes, pelos mesmos sítios e rotinas. Não há nada que substitua os nossos momentos a cantar e a dançar, nem os que passamos a chatear os nossos pais. É por tudo isto e por muito mais eu só posso agradecer à vida pelo maior e melhor presente que alguma vez pude ter, o meu irmão.

Afonso Arribança

terça-feira, 17 de abril de 2018


"Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.”
Vergílio Ferreira


     É da natureza humana relacionar-se com o passado de uma forma selectiva. Uma recordação na sexta à noite, durante aquela conversa com o melhor amigo, outra na cama, quando o tédio se abate sobre a vida... Mas, por norma, o passado fecha-se, misteriosamente não esquecido, dentro de uma caixinha. Por vezes, quando a abrimos, recordamo-nos aleatoriamente de algo ou de alguém, e por vezes – raras vezes – damo-nos conta de coisas que achávamos ter esquecido ou que já não importavam. Mas importam. Tu, minha querida, importas.

    Hoje, quando abri a caixinha, estavas lá, a sorrir como sempre. E nesse momento percebi que... Há uma parte de mim que te vai amar para sempre. Essa parte é aquela que me envolve no teu perfume. Nas tuas mãos, tão doces. No teu cabelo, tão rebelde. Esse teu espírito revoltado, mas tão bem integrado na natureza, impele-me desde que te conheço. Talvez me identifique com ele, talvez necessite dessa força. E tu sempre a tiveste. Mas agora é tarde. E tudo mudou, desde então. A fotografia de nós dois permanece, em modo sépia, guardado dentro daquela caixinha. E hoje, por acaso, reabri-a. Mas voltei a fechá-la... Meu amor.

Afonso Costa Arribança

segunda-feira, 25 de setembro de 2017


Sometimes the problem isn't about what you're expecting from that person, but what you weren't expecting from them. Probably that doesn't define her as an evil one and probably you can understand the reasons behind the gesture, but what you really can't do is to avoid your own feelings about that. Anger and deception can take control of you but in the end you know that those feelings are the other side of your heart. You know you only hate that person because you like her and because you know that she is no longer there. Like I once said, you can't just make yourself matter and then die, because you've irretrievably changed someone's world in a very very short time.

Sadly,

Afonso Arribança