terça-feira, 17 de abril de 2012


"A vida mais doce é não pensar em nada."
Friedrich Nietzsche


Dia 3 - 26 de Março de 2012

     Há duas coisas na vida pelas quais venderia a minha alma a fim de as experienciar: a liberdade e a felicidade.
     A felicidade é o delírio do ignorante, pois a ausência de pensamento congrega, enriquece. E ao mesmo tempo empobrece a alma, pois sentir sem pensar é não saber que se existe. Enquanto escrevo, sinto e penso - entrego-me ao abismo da psique humana, num lento e centrífugo processo de decadência mental, pois quanto mais se pensa, mais se sente. A escrita mais profunda é, pois, a contemplação da tristeza intelectual. É correcto afirmar-se que a inteligência abstracta permite à alma do emotivo respirar, assim como o humor sarcástico permite o mesmo ao racional que foge da depressão. O que os aproxima é o facto de saberem demais; só os animais não-racionais sabem apenas o que precisam saber, enquanto o ser humano não ignorante sabe e pensa demais. São monstros invisíveis que habitam dentro de nós e que travam dolorosas batalhas no nosso mais profundo íntimo - é a nossa prisão e a nossa eterna ausência de liberdade. A diferença é que os primeiros, como eu, contemplam maravilhados a batalha, enquanto os segundos fogem dela.
     A ignorância é felicidade, pois a ausência de mente pensante permite sentir. Às vezes gostaria de deixar de saber pensar.

P.S.: As próximas 7 publicações dirão respeito aos 7 dias da minha viagem, a relatos que fui escrevendo, pensamentos que fui passando para o papel enquanto viajava exterior e interiormente.

Afonso Costa

4 comentários:

Anónimo disse...

como poderias experienciar a felicidade sabendo que vendeste a tua alma? o:

Afonso Costa disse...

«A felicidade do escritor é o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, é o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento.»
Thomas Mann

E um sentimento que é transformado em pensamento é, porque sentimentos e pensamentos não são compatíveis, fruto da irrealidade e do paradoxo mental.

Catarina disse...

"A escrita mais profunda é, pois, a contemplação da tristeza intelectual."

Traduziste por palavras o que sinto desde à muito tempo.:)

beijinhos*

Moonlight disse...

Afonso,

A cada dia que te leio fico mais encantada com a tua forma tão realista e verdadeira de expor os factos.
Encantada pois não o saberia transcrever tão bem.
Tudo aquilo que aqui dizes é taõ verdadeiro,mas tão verdadeiro que venha quem vier nao poderá dizer o contrario.
Somos seres racionais...?Então porque complicamos aquilo que pode ser demasiado simples.
Pensar sempre foi o grande mal do ser humano...pensar demais e vêr coisas complicadas onde elas não existem e se quisermos podem ser tão simples e belas....assim como a felicidade!

Bjinho cheio de luar