quarta-feira, 7 de setembro de 2011


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
Clarice Lispector


    Há tanta vida em sentir-se o momento de não se fazer nada. Desligar, por momentos, a área neocortical do nosso cérebro, contar uma história de contos de fadas à racionalidade, fazê-la descansar e levar os nossos sentidos a dar um passeio. É então que levo a chávena do café à boca na fervência de o consumir enquanto me comprometo a esquecer do mundo lá fora. Invariavelmente, isso é coisa que acaba por nunca acontecer. Não podemos desligar nenhuma facção do nosso cérebro, mas podemos controlá-la. Assim, pouso a chávena na mesa de madeira branca em frente e acendo um cigarro, esfumaçando-o com duas bafadas, até que o coloco apoiado no cinzeiro enquanto torno a levar a chávena de café à boca. O fumo do cigarro pousado enaltece o cenário e confere-lhe um misticismo próprio de uma cena de filme. Quem me dera que fosses este café. Pois. Levar-te-ia aos meus lábios, saborar-te-ia com os mesmos, com a língua, consumir-te-ia como se não houvesse amanhã, destrinçando sabores, cheiros e sensações inerentes a ti, à situação... Ao café. Volto a levar o cigarro à boca e puxo com força. Os pulmões apertam-se como cordas, sinto-o. Então solto o fumo, lentamente, desenhando no ar o teu corpo esbelto, com todas as suas curvas, a sua cor branca, não excessiva, a textura da pele e o seu cheiro ganham forma enquanto defumo os meus pensamentos de ti no ar. Mais um gole de café. Mais um gole de ti. Termino, por fim, o cigarro e o café e respiro fundo. Há tanta vida em sentir-se... Apenas.

Afonso Costa

5 comentários:

Moonlight disse...

Afonso,

Como tudo poderia ser tão mais simples e facíl.
Mas apenas a vida se pode viver simplesmente...
Lindo como sempre!

Bj com luar

Cármen disse...

Vim aqui deixar-lhe uma informação que não tem a ver com o conteúdo desta entrada (que está excelente, já que se fala nisso). Era só para dizer que lhe deixei um selo, que está no meu blogue.

Paula disse...

Apenas e só sentir ^^

Paula disse...

Apenas e só sentir ^^

Ana Dória disse...

Gostei do tom de divina divagação que aqui encerras, gostei da leveza e claro... da metáfora.

Belíssimo!*