quarta-feira, 31 de agosto de 2011


"E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano."
Clarice Lispector



Há um número interminável de situações que nos relevam a um estatuto mínimo por comparação crescente, isto é, conjecturas dentro das quais nos encerramos numa comparação que nos oferece a sensação de sermos inferiores ou mais pequenos do que o objecto ou situação alvo à qual nos comparamos... Efectivamente, creio sentir-me excessivamente inferior em diversas situações que me concedem a necessidade de sair deste mundo e sentar-me no pequeno sofá que coloquei bem no canto da minha sala mental, de onde tenho vista para as ilhas do Pacífico e de onde posso andar dez metros, sem que me esforce muito, para entrar nas Pirâmides do Egipto. Não penso muito nisso. Mas agora que abro portas da consciência a este assunto, creio que, de facto, existem algumas situações caricatas. Como quando me sento frente a frente com o mar. 'Oh, como somos pequenos comparados com toda aquela vastidão que nos invade o olhar', penso. Como quando subo ao alto de uma serra para contemplar o mundo que, apesar de se prostrar aos meus pés, se mostra descomunal aos meus pequenos olhos. Como quando me sento no café ao lado de alguém que já realizou Aquele sonho... Penso que algumas destas situações são comuns a muita gente. Até mesmo quando nos sentimos a segunda pessoa quando desejamos sentir-nos a primeira. Sou obrigado a admitir que, perante as evidências, se torna claro que muitas das comparações que fazemos são desnecessárias, pois nós não valemos nunca por mera comparação. Conquanto isto seja uma verdade, também é verdade que aquilo que o ser humano vê pode ser sentido de inúmeras formas e feitios, sendo estas formas e feitios que moldam hoje e agora o meu estado de espírito. Estou encostado no chão do canto do meu quarto a olhar para a janela, lá fora chove, as árvores não têm folhas e os meus pés estão frios.


Afonso Costa

5 comentários:

Por entre o luar disse...

Gostei tanto ... :)

A chuva molhava-me o rosto, cansado ... *

Beijinhos Afonso*

Maria Filipa disse...

fantástico Afonso *

Débora disse...

gostei imenso!

Paula disse...

Quando ando com demasiadas coisas, com pouco tempo começo a ficar visivelmente triste e deprimida. Trabalho, cansaço e tão pouco tempo de viver no verdadeiro sentido da palavra conduzem à exaustam. Eu preciso de me ver quando olho no espelho e não falo de vaidade gosto de me reconhecer, saber que sou eu e que é isso que sinto ao olhar o reflexo. Eu preciso de parar, de por vezes fugir da agitação, do abafado de calor e de vida, preciso de sentir a realidade debaixo dos pés, de sentir a relva molhada debaixo de mim enquanto olho as estrelas só para ter a certeza que existo, que ainda não me esqueci de viver. Preciso de falar com pessoas, com PESSOAS (felizmente tenho a honra de conhecer algumas) gosto quando digo "eich são 6h da manha e ainda estou a falar contigo é hoje que te mato pah". Pequenos momentos que fazem valer a vida.

joanarocha disse...

gostei tanto *--*