quarta-feira, 18 de agosto de 2010


O Menino e o Mar


     O menino que eu vira hoje sentado à beira-mar tinha uns olhos castanhos invulgares. Era uma cor selvagem e trazia em si desenhado o reflexo do azul do mar e do verde das algas que pegava com as mãos, sujas da terra e da areia. O rapaz não era ninguém em especial, era tão somente mais um alguém de carne e osso, sangue cor escarlate, mortal tal que todos os outros seres vivos... Era igual a tantos outros da sua idade e, porém, numa contradição absurda, um rapaz invulgarmente diferente. Ele sabia-o, mas não compreendia. Perguntava-se imensas vezes o porquê de as coisas terem que ser assim... E olhava, enquanto meditava, o mar, fitando, na negridão da sua compreensão, o horizonte, quando o incorpóreo céu se cruza com o mar concreto... Na beira-mar as ondas eram demasiado pequenas e rebentavam como a força de uma criança mas mais à frente, cerca do recife de corais, as ondas eram enormes e rebentavam tal e qual força da natureza que são. O rapaz olhava o mar, fitava o horizonte e era incapaz de entender tanta coisa que lhe passava pela cabeça. Diariamente, de dentro de si, brotavam seres de diferentes formas e feitios, brigando, sem dó nem piedade pela emersão ao supremo ser, numa rixa sem fim à vista. E o rapaz incompreendia-se... Sabia, conquanto, que aquilo que podia compreender eram as rasteiras ondas que se aniquilavam na areia à beira-mar, e que aquilo que não podia compreender, o que de mais forte suprimia no seu íntimo, porém, alcançável à sua compreensão, eram as ondas que rebentavam com a força da sua essência nas rochas e nos corais. Havia, ainda, aquilo que não estava ao seu alcance, aquilo que a sua mente e as suas almas podremente escondiam do monstro pensante - o céu. Assim, aquelas almas de estranha matéria irrompiam pelas lacunas do psíquico, rasgando a carne e dilacerando o coração, metamorfoseando-o na sua quase totalidade... Amanhã, certamente, o lugar será usurpado e, do seu íntimo, irromperá uma nova personagem, com outra sede de viver, e novas forças serão criadas, como se essa seja a razão da sua inesgotável fonte de energia, como se o facto de não existir, somente em si, mas em conexo com todas as personagens e realidades que procria em si, seja o facto - negro facto - do seu alento e das suas infindáveis perguntas e incompreensões, da sua inesgotável e complexa força interior, como aquelas ondas que, incessante e estupramente, rebentavam nos corais. Ou talvez fosse a sua prisão...
     O rapaz de olhos castanhos selvagens fitava o horizonte, "calmo e sereno", dizia quem passava. Mas os pescadores, por conhecerem de que matéria era feita o mar e por saberem que o rapaz se regia pelas mesmas leis do mar, sabiam que dentro dele, as mais fortes tempestades rebentavam debaixo de um negro céu de nuvens.

Afonso Costa

9 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Reflexivo, contemplativo, poético e arriscaria dizer um alter-ego, autobiografico.

Gostei muito, como sempre gosto quando aqui passo.

Abraço

maria eduarda disse...

está tão perfeito Afonso. tão misto! continuas com o teu jeito único de passar para o "papel" aquilo que te vai na alma, e continuam a ficar brilhantes os teus textos. obrigada por partilhares connosco esse teu talento, esse teu sentimento e gosto pela escrita. continua :)

carolina disse...

nem tenho palavras.

RicardoRodriguez disse...

Adorei o teu texto! Vou seguir.

Mar disse...

encontro-te neste texto. imagino-te assim.

mariana fernandes. disse...

Gosto muito deste blog , :) fotografias , pensamentos .. tem de tudo e com qualidade . ate a musica :b

http://alisonexpiracao.blogspot.com/ :)

CB disse...

e que nunca chegue a bonança a essa tempestade de espírito.
ámen.

filipa disse...

está algo de fantástico este texto Afonso.
e há pessoas que merecem declarações como aquela que escrevi.

Maxwel Quintão disse...

nem sei o que dizer, estou sem palavras!