sexta-feira, 2 de abril de 2010


"Quanta tristeza há nesta vida, só incerteza, só despedida..."
Vinícius de Moraes

Sentado na areia, ia enroscando os pés na areia, abraçando-lhe de alma os grãos ainda molhados pela água do mar. Vi-me hoje ao meu lado, embora talvez desde que nasci que tenha estado, e agradeci a mim mesmo por isso. Era eu, comigo mesmo, sentado lado a lado, e naquele momento senti uma enorme vontade de falar comigo. «Tenho algum medo, ao qual não consigo reagir, como se eu fosse um boneco da vida e do tempo, preso às amarras da própria vida que vai avançando como se não houvesse amanhã, a uma velocidade bíblica que já não mais, nem mentalmente, consigo parar. O tempo não pára e a vida avança assustadoramente rápido ante a indeclinável sucessão de acontecimentos que vão mudando esta história e até a personagem principal… É estranho, pois o que é estranho é aquilo que não conhecemos, e eu chego à apavorante conclusão de que não conheço o que temo.» Ao mesmo tempo que falava comigo mesmo, sentou-se um outro eu do meu lado esquerdo, ao qual se seguiu outro. «Tenho medo…» Não paro de lhes repetir. «Porque é que vocês existem? Não vos quero ver, estou cansado.» E estava, de facto, cansado de ver, de pensar, de sentir, estava esgotado, e nada mais estava à medida da minha corpolência cansada que ainda hoje cede, por vezes, à veloz e incansável viagem sem regresso do tempo. E eu digo-lhes, dia após dia, que tenho medo, e a sensação de impotência apodera-se. Renasço a cada momento, como se a minha vida tivesse em cada lugar, em cada pessoa e em cada momento uma fonte que jorra de repente, involuntariamente e sem que eu espere, constantemente com o mesmo ímpeto do início. Tudo recomeça, e por vezes não me encontro. Pois quando tudo muda, constantemente, o sentido das coisas tende a fugir, e o meu reflexo no espelho também. Às vezes demora a voltar...
 Afonso Costa

7 comentários:

Neez disse...

Adoro a sua forma de escrever.

Paula disse...

Quantas vezes vejo os meus medos a atormentarem a minha pessoa, o meu ser, aquilo que sou. Atormentam e quando eu penso que os enfrentei que ja nao existem eles fazem questao de me relembrar que estao so adormecidos.

'Pois quando tudo muda, constantemente, o sentido das coisas tende a fugir, e o meu reflexo no espelho também. Às vezes demora a voltar...'

Quanta verdade existe nessa expressao. As mudanças nao sao so aos nossos olhos tambem sao dentro de nos e por vezes me olho no espelho e me sinto deslocada de mim mesma. (:

Tiago MM. disse...

Uma escrita única, muito agradável de ler :)

Mara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mara disse...

Já cá não venho comentar hà algum tempo, mas quero que saibas que te leio sempre.

Seria pecado não o fazer ;)

Por entre o luar disse...

Porque és tão parecido comigoo =`)

Amei Afonso.. e sabes.. tenho o mesmo medo*

Beijito*

Constança Perez disse...

todos temos medo e este texto está incrivel