sexta-feira, 4 de dezembro de 2009


[Foto: Sangalhos - Anadia, Abril 2009]

Cada lugar tem a sua história…

Assim que a hora de o sol se por se aproximava e as aulas terminavam, fazia-se acompanhar de amigos até metade do caminho. As animadas conversas entre o rapaz e os seus colegas dava lugar à habitual caminhada pintada de paz e serenidade, entre estradas, campos, vacas e ovelhas a pastarem, pássaros que voavam de árvore em árvore… O céu ia mudando de cores à medida que o sol se aproximava da linha do horizonte, e o cheiro a terra molhada fazia-se sentir por todo o lado. O rapaz passava todos os dias pelos mesmos sítios. Primeiramente, uma imensa área deserta, polvilhada de campos e pastos, e seguidamente pelo cruzamento de estradas, ao qual se lhe seguia o poço no meio de árvores, abandonado há imensos anos, e por fim a povoação onde vivia com a avó. Todos os dias os mesmos sítios. Todos os dias, à mesma hora, e obrigatoriamente, tinha que passar em frente àquela casa. Àquela hora, quando na janela do sótão, a rapariga aparecia para admirar o por do sol. Em dias de chuva, apenas se lhe via uma pálida face do lado de dentro da janela. Em dias de sol fazia-se mostrar ao vento e ao sol, já que aquela rua estava sempre deserta. Os seus cabelos louros uivavam ao vento e reluziam tanta beleza quanto os seus olhos azuis. Porquê aquela bela criatura estaria ali trancada há tanto tempo, todos os dias, à mesma hora, no mesmo sítio, fazendo sistematicamente a mesma coisa? O rapaz fascinava-se sempre da mesma maneira, como se aquela rapariga fosse novidade dia após dia. Tinha-se tornado a musa dos seus poemas, das suas canções, poetisa da sensualidade e contemplação. Dona de um rosto pálido, aquieto, observador, ela possuía um olhar que evocava incêndio e adoração a qualquer um que a mirasse. Porque existem tantas pessoas neste mundo, mas por vezes… Por vezes há peças que só encaixam num determinado momento, momentos que estão destinados a determinadas pessoas, e lugares que têm sempre histórias para contar (e por contar)…

Afonso Costa

26 comentários:

filipa disse...

está tão lindo. esses lugares e essas histórias são fascinantes !

Carolina disse...

Tão bonito *-*

Carolina disse...

Também eu Afonso. Oh, eu é que agradeço.
Beijinhoos (:

Luís Gonçalves Ferreira disse...

Sabes, num primeiro momento da estória, fazes-me lembrar Caeiro e a sua admiração pelo estado natural das coisas. Gostei muito. Essa pessoas estática, do alto do sótão, está afinal no seu estado natural, numa apatia de bicho incendiado e perturbado pelo exterior ambulante. Está muito bom, parabéns.

Abraço

filipa disse...

Obrigado afonso :)

S* disse...

Há lugares que me emocionam sempre que por lá passo...

Lady me disse...

Há lugares inesquecíveis... E quando lá voltamos é tão bom!
Adorei a foto!

madu disse...

foi muito bom de ler:)
a música e o texto, muito bonito mesmo Afonso

mil
madu

Liii disse...

ás vezes relaciono- me muito contigo.
Há imensos lugares que ficam na memória, só pelo simples facto de gostarmos ou então os lugares que significam muito para nós.
Adoro os teus textos e admiro- te muito pela força que tens, eu já não sei se terei essa força.

Beijinho Afonso.

disse...

Gosto tanto de te ler.
As tuas letras são camaleões gigantes onde o único tom constante é a envolvência que despertas no leitor.

Agarras-me assim .

Moonlight disse...

Afonso,

Existem memorias de lugares magicamente belos com presonagens que jamais esqueceremos.
Se assim não fosse não teriam a mesma conotaçao no nossso pensamento.São momentos que vivem para sempre dentro de nós.

Bjinho cheio de luar

Andreia disse...

Faz-me lembrar a minha terrinha... *

Marianagastonna disse...

tens uma simplicidade e um jeito que toca tudo e todos. adorei ler o que escreveste!*

Marianagastonna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mara disse...

Fazes-me sonhar*
Sempre.

Sophia disse...

Ta' lindo :)

- jezebel disse...

AMEI Afonso *.*

Catarina disse...

ooh, concordo com a frase... que confusões são essas?
escreves super bem, não há palavras.

um beijinho.

rafaela veiga disse...

Nunca pares de escrever! Lindo :)

bjs*

Inesita Blog disse...

Cada texto mais bonito que o outro :)

Gosto tanto ^^

Maria Francisca disse...

É muito teu porque, apesar de ser uma coisa que muitas pessoas sentem, só tu é que escreves assim.
Estás com psicologia? :) O meu pai é psicanalista, pertence à sociedade de psicanalise e mais umas coisas. Psicologia é giro.
Sou (um bocado) como a Teresa, mexer e procurar coisas, que nem sei bem o que são, na mala.
Neste texto consegui sentir os cheiros. Adoro.
Beijinhos

mary ♥ disse...

Maravilhoso *.*

- jezebel disse...

E vai um mimo :)
www.ruelascruzadas.blogspot.com

deborah disse...

pois é!
gostei muito do texto

P' disse...

Este texto fascinou-me , mesmo *_*

Oh , obrigada Afonso. (:

Salomé disse...

Este texto está assim para o lado do maravilhoso. Consegui visualizar o espaço a que te referias e ao mesmo tempo tive um arrepio na espinha. Parabens Afonso, gostei muito*