domingo, 21 de junho de 2009



"Eles, que não conhecem nem o próprio caminho, mostram aos outros a estrada."
Enio

Parecem um amontoado de animais sem a noção do seu ridículo. As vozes sobrepõem-se, articulam fonemas em fila indiana, rápida e ineficazmente, querendo cada um ser mais ouvido que o outro. Os versos confundem-se e a prosa consome-se em belas palavras sem sentido. Guiam-se pelo instinto, não passam de criaturas selvagens que concebem regras para se sentirem educados. Exigem que as respeitem, mas não sabem respeitá-las. Desenham sorrisos e pintam tectos de falsas cores. Cegos, daltónicos, surdos ou mentirosos, mas não mudos. Bestas da natureza que não passam de simples bonecos de uma história cor-de-rosa que criam em função do vosso ego. Alimentam belos sonhos em frente ao vosso podre reflexo, posam para a foto e ornamentam a vossa formosa escultura de objectos dilectos, apenas objectos. São cegos ou gostam de má fotografia? Oh, como dançam, como falam e gritam ao som da própria falsa modéstia e morna simpatia. Vão exigir ser ouvidos, mas nunca querem ouvir. Que audácia vestir na pele tão bela criação artística, mas a verdadeira elegância, essa deixam-na em casa. Nada mais trazem, e as máscaras não as poderiam deixar em casa, se lá também as usam. Mas que me calem as palavras ridículas, porque nada sou e nada pretendo ser neste enredo. É de extremos, e o meu coração vai latejando, incompreendido, “incompreendendo”, porque não se pode compreender o mundo de ninguém. Nem eu quero ser compreendido, porque também não vos compreendo. Mas dancem, que eu vou ali. Dancem, cantem, mas não me gritem e nem tentem compreender-me, porque eu também não. É simplesmente assim que as coisas são. Continuem a dançar. Dancemos todos ao som desta batida insuportável, uma infernal ciranda de pedras que rodopiam ao redor do seu próprio egoísmo.

18 comentários:

baby piggy disse...

eu sei para quem é este.

Aubergine. disse...

"Desenham sorrisos e pintam tectos de falsas cores."

Adorei o texto! Magnífico, parabéns Afonso .

Beijinho *

Porcelain Doll disse...

Geralmente, quanto menos se sabe, mais se fala como se se soubesse... como se se compreendesse... talvez compreendas, já que compreendes que não te compreendem... por isso é que eu, quando não sei, sobretudo no que aos outros diz respeito, prefiro o silêncio... :)

ti em mim disse...

obrigado :)

mas, como podes ver no comentário mesmo a seguir ao teu (dela - parte dela), nada vai voltar a ser como dantes.

Nameless trying to be someone. disse...

sim, desde a primeira classe que nos põem a interretar autores, depois chegamos ao fim do secundário com a mania que sabemos interpretar pessoas. deviam-nos ter dito que era diferente.

Joana Éme. disse...

As tuas palavras têm sabor, Afonso.
E sabem bem, sabes?

Zita disse...

Senti falta de te ler. Texto fabuloso *

Luís Gonçalves Ferreira disse...

Todos temos máscaras. São inegaveis, mas profundamente caracterizadoras. A certa altura não sabes se és a pessoa que queres ser ou aquela que realmente és.

Existe um poema fantástico de Álvaro de Campos, sobre a personalidade e o crescimento mutativo, chama-se "Depus a máscara". O poeta canta assim:

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.


Abraço

Madu disse...

está fantástico Afonso, como sempre.E não podia concordar mais contigo.

Já tinha saudades de te visitar:)

AnaLuísa disse...

"Que audácia vestir na pele tão bela criação artística, mas a verdadeira elegância, essa deixam-na em casa. Nada mais trazem, e as máscaras não as poderiam deixar em casa, se lá também as usam."

gostei Afonso. *

Ana Monteiro disse...

Longo suspiro. São tão curtos os braços que sustentam a vida! Facilmente, nos deixam cair, tremer, ter medo.
Tão quente é o colo de quem nos ama. Quente, mas não infalível. Quente, mas não protector de tudo.
Tão fatais as pedras que nos atiram lá de cima, donde o mundo é mais claro e o futuro tem linhas certas! São fatais, tão repentinas.


Quanto ao auto-controlo... Tenho que controlar. Desta vez, as coisas têm que ir com calma para ficarem 'bem feitas'. É um jogo de nervos!

Beijo, Afonso *

Carolina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carolina disse...

Um texto bastante expressivo e original...:D

"Guiam-se pelo instinto, não passam de criaturas selvagens que concebem regras para se sentirem educados"

Gostei... escreves bastante bem!
Desculpa a invasao...parabens! :P

Catarina disse...

existia.

Adriana disse...

Hoje enquanto andava a ler bloggers,descobri o teu.. e já tive oportunidade de ler algumas coisas.. e tenho gostado bastante!
E a música tmb está muito bem!! Adoro música... * está é lindaa!

Maria Francisca disse...

Tão bonito Afonso.
Beijinhos*

Inês disse...

Afonso, é o teu melhor post.
Nem tenho palavras para dizer o quanto amei este texto!
parabéns *.*

Marianita disse...

Está fantástico.
beijinhos