segunda-feira, 20 de outubro de 2014


"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
Friedrich Nietzsche

Foto: http://www.jillserranophotography.com

    Cai a chuva, pérfida e violentamente, ilustrando o naufrágio da estrada que, à nossa frente, se dilui no cenário em redor. De olhar circunspecto, divido a atenção possível entre a minha condução e as tuas palavras que, confesso, se vão transformando nos únicos elementos a reter conscientemente. Reforças a minha ingénua convicção de que as cicatrizes do passado são um elemento de união entre as nossas almas.

    É, aliás, assim com o ser humano no geral. A tristeza tem o dom de unir o Homem, assim como a felicidade de o separar.

    Não chego a ter pena de ti, porque também não tenho pena de mim. Na realidade, tenho uma rara admiração por ti, como pelas poucas pessoas que sinto verdadeiramente Humanas. Tens uma fragilidade proporcional à força que tens, embora sem cinismo, e uma personalidade dotada de um verdadeiro instinto de sobrevivência e de busca da tua própria verdade.
    Calado, vou-te ouvindo, e sinto cada palavra tua como se de facas se tratassem, engolidas ao acaso e espetadas no meu estômago... Aquele momento cósmico de pura manipulação sensorial em que nos identificamos com o outro e o que quer que o mesmo diga, é automaticamente absorvido, sentido, vivido. Podia ter-te dito muito mais do que disse, como, aliás, faço sempre. Mas dei-te a mão e nela deixei repousar os meus lábios, numa tentativa sofrida de te fazer sentir que existe alguém que te perceba e que te sente.
    Por vezes penso mesmo no facto de que nascemos num mundo que vive para nos orientar num caminho e extinguir, com regras e propagação de medos inconscientes através de preceitos e preconceitos, a nossa natureza, a nossa verdade subjectiva. Foi isso que senti em ti, que sinto em mim e em todas as pessoas à minha volta. A liberdade não se conquista no seu mais puro conceito, mas sempre (sempre!) condicionada. É reconhecendo as limitações da liberdade que podemos conquistar a quota parte da que perdemos à nascença e com o passar dos anos. Quando te disse para saíres do carro e dançares à chuva, não estava louco. Tampouco brincava... Ah, mas aquela sensação do "ridículo"... Aquele constructo cognitivo que nos foi colado nas profundezas do Ego, desenvolvendo e propagando raízes a todos os cantos da mente. Sentiremos o "ridículo" sempre que nos confrontarmos com a libertação dos nossos mais puros desejos de ser feliz. E seremos sempre impedidos de Viver, enquanto não tomarmos consciência de que ridículos somos nós. Deificamos a liberdade, mas passamos uma vida abraçados àquilo que mais a extingue de nós.

Afonso Arribança

2 comentários:

Paula disse...

Aos olhos dos outros seremos sempre ridículos se fizermos aquilo que nos faz feliz.

Haverá sempre preconceitos e todos seremos sempre um pouco ridículos. Mas que importa isso se somos felizes assim.

Anónimo disse...

Temos, por vezes, essa dificuldade em nos libertarmos dos estigmas e preconceitos que criamos nas nossas mentes: como associar a um acto infantil chapinhar nas poças de água. Mas quando nos libertamos deles, fica essa sensação de felicidade.
Beijocas

alucinacoesdaalma.wordpress.com