segunda-feira, 8 de outubro de 2012


"Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Sem ti correrá tudo sem ti."
Álvaro de Campos


     Toma-me, provecto de cansaço, nos teus braços. Que, doravante, possa sentir o quente dos teus braços garantir-me a eminência da eternidade. O meu corpo não pode nem consegue sustentar mais o peso da sua sombra, dos seus membros, por ora entornados pela gravidade. Toma-me nos teus braços. E garante-me amor. Sem troca, sem exigências. Leva contigo as escrupulosas dubiedades que se escondem debaixo da minha cama nos dias de chuva. Ou larga-me às margens do Nilo, para que possa o mar tomar-me por findo. Sê escrivão do meu futuro, porque a minha tinta acabou, o papel ardeu e o meu braço não mais desafia as leis da gravidade. Toma-me e diz-me, nos olhos, quem eu sou. Ou larga em noite de lua cheia, na exasperação das correntes, o cadáver do meu passado. E que todas as ilusões se finem quando rio e mar se enlaçam. A negridão da noite que faça o seu dever de apagar o irreparável. O corpo que foi, o que é e o que não foi. Tudo o que foi dito e feito e tudo o que não foi dito nem concretizado. Abraça-me e diz-me, em segredo, o que sou ou sepulta-me sob a lua na sentença da eterna inexistência. Para que então só exista o luar.

Afonso Costa Arribança

1 comentário:

Cristina Moura disse...

aquele momento em que ler isto fez todo o sentido na minha realidade...