quinta-feira, 10 de novembro de 2011


"Assim como uma flor necessita ser regada, também o passado necessita ser relembrado. Por isso, relembrar faz com que o passado não pereça e continue vivo na nossa memória."
Afonso Costa


    Tinha acabado de sair de casa. Estava em modo de rotina automático, seguindo o mesmo trilho de sempre, ciente de que tinha de chegar a horas certas a determinado lugar, como sempre. Porém, renunciei ao pragmatismo rotineiro desse dia, fruto da necessidade de extrapolar as barreiras da obrigatoriedade, de fazer algo diferente, de trilhar caminhos há muito não pisados. Então, dei meia volta e fui para o mesmo sítio de outrora... Aquele sítio onde passava horas sozinho a escrever ou mesmo junto a ti... Junto ao rio... Mas naquele dia, apenas junto à reminiscência viva de ti abraçada a mim, numa outra dimensão que me sorveu a mente e a atenção por momentos. Quem por mim passava e para mim olhava, podia perceber o quão distante estava. De facto, estava distante. Sobrevoava o mundo de memórias felizes e infelizes que podiam naquele momento emergir do meu inconsciente, lembranças há muito fechadas numa caixinha que urgia já em ser aberta. As lágrimas percorreram-me a cara e fizeram-me sorrir. Pude lembrar-me de todas as pessoas que passaram pela minha vida, o quão me foram especiais e... É estranho poder dizê-lo, mas: o quão passaram a ser especiais naquele preciso momento, brotando dentro de mim alegrias e mágoas, tristezas e saudades, orgulho... Ah, orgulho... Esse sentimento tão completo, tão cheio de tudo. Como me enchem de felicidade estas pessoas, mesmo aquelas pessoas que estão apenas presentes nas fotografias que guardei na pequena caixinha. Mesmo essas... Como tenho saudades vossas. Fechei, então, os olhos.
    No fim, voltei a colocar tudo na caixinha e fechei-a. Arranquei um post-it, colando-o na caixa, e escrevi nele um coração. Depois coloquei a caixinha numa prateleira mais baixa do que estava antes para que pudesse daí em diante, e mais frequentemente, pegar nela e recordar, novamente, tudo aquilo que fez e faz de mim aquilo que sou hoje.

Afonso Costa

4 comentários:

Lipincot Surley disse...

Guardaste o crescimento. Guardaste a evolução! Coloca-as (mais) ao teu alcance. Como fazes isso?

Moonlight disse...

Afonso

Que engraçado como me revi nas tuas palavras.Pensei...que engraçado ele tambem têm uma caixinha parecida com a minha.....
Tambem outrora eu a coloquei mais ao meu alcance...para que a abra muitas e muitas vezes...
Lindo!

Bjinho cheio de luar

Lipincot Surley disse...

Estava a referir-me ao facto de que nem sempre é fácil reunir aquilo que melancolicamente nos faz bem e colocá-lo mais disponível e ao nosso alcance para que "daí em diante, e mais frequentemente, pegar nela e recordar, novamente, tudo aquilo que fez e faz de mim aquilo que sou hoje"

gostei mesmo deste texto!

Cármen disse...

De facto, não adianta, nem é justo guardarmos rancor. Tudo o que passou por nós fez de nós quem hoje somos. Até as piores e mais tristes coisas...