terça-feira, 30 de novembro de 2010


"A felicidade aparece para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam em nossa vida."
Clarice Lispector

     A Natureza divagava sementes pela terra, fazia florescer os jasmins e as margaridas, chorava pela terra e rodeava-a de oceanos, fazendo desabrochar, no meio dessa terra, a mais bela de todas as flores. Assim, para além dos jasmins e das margaridas, da chuva e dos apoteóticos oceanos, também eu te mirava, da minha insignificância, de baixo do teu pedestal, oh mais bela. E a Natureza concebia-te, da luz, os teus olhos desumanamente belos, da terra, os teus cabelos cor de ocre ao vento, do mar, a sua ondulação, das planícies, os teus lábios semi-cerrados, escondendo um constante arrufo de sensações mundanas, por entre uma troca de olhares entre teus olhos castanhos e o mar cor cerúleo. Embalavas as ondas do mar e os ventos que te acercavam na doçura do teu monólogo... E calavas, o tudo, que era nada sem ti, gritando em silêncio, num alento de esperança, palavras e alegria aos ventos. Os ventos eram frios e as palavras acarretavam em si um aroma a crisântemos em pleno inverno; palavras tuas são como o teu sorriso, rompem o frio e o quente das estações, quebram o gelo e amenam o fogo. O olhar, amplo e inebriante, irrompe, por entre o orvalho matinal, da vida do teu sorriso. E quando olhas para mim, importas, não só o vento invernoso, o fogo da tua existência e a força dos oceanos ou das chuvas que embebem a terra, trazes o odor a crisântemos em teu olhar e de jasmins em teus lábios. Verdadeiramente belo.
     E naquela tarde, quando olhavas para a minh'alma em repouso nos braços do teu sorriso, não sabias que eu estava ali, e não estava. É verdadeiramente insano dizer-te que não estava à tua frente, mas não estava realmente. Olhavas para mim e eu estava arrumado num canto dentro de ti. Foi por isso que fechaste os olhos, porque aquilo que é verdadeiramente importante está dentro de nós. Sejam jasmins, margaridas, crisântemos ou outras cousas quaisquer que a teu coração aprouver. Não importa... Olhar para fora ou para dentro de nós é irrelevante. O que existe está lá - e a importância que assumes está.

Afonso Costa

2 comentários:

Catarina disse...

Simplesmente encantador, tão suave e cativante mas ao mesmo tempo profundo. Sabes sempre escolher as palavras certas :)

Beijinho *

joana disse...

É sempre bom encontrar um blogue com este nível de escrita e qualidade fotográfica. :)