sexta-feira, 19 de novembro de 2010


"(...) É preciso partir
É preciso chegar
É preciso partir, é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!"
Mário Quintana

Um dos grandes males do ser humano é não saber identificar os limites. Quando acabar, quando começar... Quando dizer, quando não dizer... Quando fazer, quando não fazer... Quando continuar... Ou quando partir. Não admira, tais factores estão, entre burocracias, associados à maturidade que ele nunca soube ganhar ao longo de milhares de anos, pois que continue, assim, a aprender somente com os seus próprios erros.
É, pois, já, inerente ao ser humano a sua imaturidade e inalterável busca do aprendizado pela própria dor e sacrifício, como se algemasse o cérebro e o coração em arame farpado ao sabor do vento e de outras coisas. De roupas confortáveis e compradas ao bom alto preço da exibição social, passa fome e vai rompendo a alma de fome e valores, enquanto se senta confortável no também roto sofá da sala. Vai-se comprometendo, dia após dia, com o contrato que assina à vida e à morte, no preto e no branco, pela tragédia da sua vida. Perde, assim, o seu Eu, na esperança de ser diferente, tornando-se igual a todos os outros. E reclama da vida, como se rebentasse a caixa de Pandora nas suas mãos e todos os males do mundo o atormentassem. Por vezes é verdade. Mas, não por vezes, sempre, temos a hipótese de saber quando  e como nos livrarmos do sofrimento. Quando o Norte se perde e a alegria e o controlo da vida se refugiam em coordenadas incertas, podemos sempre colocar os pontos nos "i's" e acentuar a despedida, pois, já dizia Pessoa, há-de haver um momento na vida em que é preciso deixar para trás as roupas usadas, aquelas que têm a forma do nosso corpo e esquecer os passos que demos e os caminhos que percorremos, que não passam de formas de nos levar sempre aos mesmos lugares. Na imaturidade da nossa existência, temos a possibilidade de chegar a uma altura da nossa vida e saber quando partir, quando dizer chega. Eis, pois, o tempo da travessia e da busca da nossa essência perdida. Continuo expectante em relação ao dia em que terei que o fazer e sei, por certo, que os quadros a preto e branco serão deixados para trás. Levo somente as cores do arco-íris e as músicas da minha vida na mala. E eu, certamente.

Afonso Costa

10 comentários:

Paula disse...

Quantas vezes vais olhar para trás
Estas preso a um passado que pesou
Quantas vezes vais ser tu capaz
Fazer sair quem por engano entrou

Abre a tua porta
Não tenhas medo
Tens o mundo inteiro
A espera para entrar
De sorriso no rosto
Talvez o segredo
Alguém te quer falar

Olha em frente e diz-me
Aquilo que vês
Reflexos de quem conheces bem
Ouve essa voz, é a tua voz
Atenção e a razão que tens

Abre a tua porta
Não tenhas medo
Tens o mundo inteiro
A espera para entrar
De sorriso no rosto
Talvez o segredo
Alguém te quer falar

Deixa o mundo girar para o lado que quer
Não podes parar nem tens nada a perder
Estas de passagem,
Não leves a mal se te manda avançar
Talvez seja o sinal que não podes parar
Estas de passagem

Vai aonde queres
Ser quem tu quiseres
Estende a tua mão
De quem vier por bem,
Abre a tua porta
Não tenhas medo
Tens o mundo inteiro
A espera para entrar
De sorriso no rosto
Talvez o segredo
Alguém te quer falar

Deixa o mundo girar para o lado que quer
Não podes parar nem tens nada a perder
Estas de passagem,
Não leves a mal se te manda avançar
Talvez seja o sinal que não podes parar
Estas de passagem

Só de passagem
estou de passagem para outro lugar

(polo norte)

Jessica disse...

muito bom mesmo, apanhou-me num dia daqueles em que o passado volta a cruzar o presente, após tanto tempo de ausência, e fez-me reflectir :)

filipa disse...

"há-de haver um momento na vida em que é preciso deixar para trás as roupas usadas, aquelas que têm a forma do nosso corpo e esquecer os passos que demos e os caminhos que percorremos, que não passam de formas de nos levar sempre aos mesmos lugares." Pessoa *
está fantástico Afonso .

- joanarocha disse...

esta lindo .

Joana disse...

Vais sentir quando for a hora de partir. Muito bonito o texto. Como sempre.

Beijinhos

Joana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Dória disse...

Concordo plenamente: não temos noções de limites. Por que será?

Será que nos habituamos à incerteza e a tomamos como único alívio? Talvez... quem sabe, não obstante, belíssimo registo, como sempre.

A.D*

Anónimo disse...

Прикольненькая идея, как скоро ожидается поступление свежего материала и вообще стоит ожидать ?

Catarina disse...

Em primeiro este texto está absolutamente cativante e acertivo. Partilho com uma boa parte das tuas opinoes, pois as vezes é muito dificil o ser humano estabelecer e reconhecer os limites nas mais váriadas situações e momentos. É certo que o ser humano aprende com os próprios erros, mas algumas das vezes repete-os e isso para os outros torna-se chato e impróprio mas há que saber ouvir e tentarmos melhorar com os conselhos dos outros até porque é para o nosso próprio bem.

Beijinho *

Joana ' disse...

Havia um muro que eu teimava sempre em subir, quando ia brincar no jardim com a minha mãe. Ela avisava-me que me ia magoar, ralhava-me e sacudia-me o pó do rabo, de vez em quando. Nunca liguei.
Houve um dia, em que a minha mãe não estava lá, porque tinha que trabalhar até mais tarde, e fui até ao jardim com as minhas irmãs e com as amigas. As minhas irmãs deixaram de ter os olhos sobre mim durante uns segundos e foi o suficiente para chamar-lhes de novo à atenção, porque tinha o joelho a sangrar e um sentimento de culpa a pesar-me nos ombros e a transbordar-me pelos olhos... Depois de chorar, de tratar da ferida e do meu pai me dar um beijinho no joelho para a dor passar, a minha mãe chega e preocupa-se por ver-me assim. A primeira coisa que fiz, foi abraçá-la e pedir-lhe desculpa...
Lembro-me, como se fosse hoje, do sorriso que a minha mãe esboçou: nele estavam todos os avisos, todos os sinais de perigo que eu, ainda hoje, teimo em não ver... no fundo, estava contido no sorriso da minha mãe, a certeza de que, por mais quedas que desse, iria sempre levantar-me de seguida porque tinha quem me desse a mão.

e é por isto, caro Afonso, que o ser humano tem esta necessidade estranha de arriscar e ultrapassar limites. . . porque é a tentar que aprendemos... mesmo quando erramos.

no entanto, deixa-me dizer, que errar uma vez é normal, mais do que isso....

ps. andava para comentar à imenso tempo mas cada post que lia dava-me sempre vontade de ler só mais um bocadinho... por aqui fiquei, restam-me as tuas palavras deste novo ano, para ler.
um beijinho, fica bem