segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

 
"O essencial é invisível aos olhos"
Antoine de Saint-Exupéry

[Foto: Google]
Um sonho...

A paisagem era de sonho, no tecto do mundo. Uma planície imensa, as aves sobrevoando o céu e as montanhas lá ao fundo. Naquele lugar, a paz reinava e os únicos sons que se ouviam eram o do vento e o da areia e mais ao fundo, o das aves. Do meu lado estavam dois irmãos, de pele escura típica dos tibetanos, sentados nuns bancos, e o mais velho mostrava-se incomodado com a minha presença. Os seus olhos rasgados castanhos cor de mel gritavam em silêncio a repulsa pelo estranho que ali se encontrava. O mais pequeno sorriu para mim e por momentos desviou o olhar para o irmão: perguntou-lhe se acredita em Deus. Ao ouvi-lo falar, o outro irmão parou de olhar para mim e olhou directamente nos olhos do irmão mais novo. Segurou-o fortemente nos braços e abanou-o violentamente, palavreando irritado em hindu: “Eu não acredito nessas coisas! Não o vês, nunca o viste, nunca o verás. Os pais morreram e agora somos só nós os dois, achas que se deus existisse estávamos aqui e nesta situação? Eu já não acredito em nada nesta vida, ouviste? Em nada!” O sorriso do menino tinha-se dissipado do seu rosto escuro e sujo de terra e em seu lugar caíram lágrimas, que prontamente limpou com a manga daquelas enormes vestes que trazia por cima do corpo. Ao olhar aquela criança, senti um aperto tão intenso no meu coração que me senti puxado a me aproximar deles e assim abordar o irmão mais velho. “Hey”, disse eu. “Não assustes o teu irmão.” Visivelmente contra a minha presença ali, recuou tal e qual animal selvagem, puxando o pequeno pela mão. Marcou a sua posição de defesa e acenou que não com a cabeça. Pedi para ele se aproximar. “Não te quero fazer mal… deixa-me falar contigo rapaz”. Baixei-me e o mais novo aproximou-se lentamente de mim, contra a vontade do irmão. Dei-lhe a minha mão… A princípio o mais velho estranhou, mas o mais novo rapidamente confiou no estranho que a minha pessoa representava. Depois de me ceder a sua mão, o irmão mais velho abandonou a posição defensiva e aproximou-se lentamente, acabando também ele por me dar a sua mão. Assim que apertei com força as mãos das duas crianças contra a minha, o vento fez-se sentir ao levantar os meus cabelos. “A vida foi cruel para com vocês. Mas isso não impede que feches o teu coração ao essencial desta vida. Só acreditas naquilo que os teus olhos te fazem ver?” O rapaz largou a mão de mim e do irmão e recuou novamente em posição defensiva, dizendo que “A vida não foi cruel, mas já me pregou rasteiras suficientes... Prefiro deixar os pés assentes na terra e ver as coisas com os meus próprios olhos.” Voltei a buscar a mão do rapaz e disse-lhe que olhasse para o irmão: “Tu e o teu irmão têm uma ligação muito especial. Os sentimentos que tu tens por ele não são visíveis como aquela montanha ali atrás de vocês, e tu mesmo assim acreditas neles e não largas a mão do teu irmão. Não tomes como facto as tuas verdades só porque o ressentimento tomou conta de ti. Existem aqueles que não vêm a verdade porque insistem em olhá-la com os seus olhos. Entretanto, existem uns poucos, cujos olhos estão cobertos com uma leve camada de poeira; estes compreenderão a verdade.”
Quando acabei de pronunciar aquelas palavras, senti o vento a aumentar de intensidade. As aves estavam desorientadas e a fugir das montanhas, e quando dei por isso, os rapazes escondiam-se debaixo dos bancos grandes. “Esconda-se, estranho”, disse-me o mais velho, enquanto as areias desciam as montanhas em nossa direcção. Escondi-me e a tempestade passou por cima de nós. Enquanto o medo nos percorria as veias, o mais novo disse-me que não tivesse medo, pois “se tiveres que morrer hoje, não há nada que agora possas fazer para mudar esse destino”.
E acordei...

Afonso Costa

18 comentários:

filipa disse...

Adorei o teu sonho... aliás, gostei ainda mais da forma como o transmitiste...
A vida é tudo aquilo que "sonhaste" neste texto.

Beijo*

Paula disse...

Por momentos perdi-me no texto. 'Encheu-me' tanto que por momentos quis que fosse realidade e estar eu perdida por esse mundo em lugares longinquos abraçando a vida e o mundo - abraçando toda a gente dando sempre o sorriso, amor e conforto.

Continua a sonhar com coisas assim para eu cada vez mais ter a certeza do que quero para mim e para a minha vida, sentimentos e coisas como essas que não existindo nos formam, nos completam verdadeiramente engrandecendo-nos.

(:

Palavras que falam por mim disse...

Primeiramente parabéns pelo blog, é de ótima qualidade! E por este motivo venho fazer o seguinte convite:

O Blog “Palavras que falam por mim” foi criado para você que adora exprimir seus sentimentos em palavras, sejam elas suas ou não. E que, além disso, adora compartilhar-las. Então, quer expressar seus sentimentos, gostos, opiniões (e etc) e através deles divulgar seu blog?
Para participar basta enviar as “Palavras Que Falam” por você (e até mesmo a imagem que deseja ser postada. É opcional.) para palavrasquefalampormim@gmail.com, e estarei publicando e divulgando teu blog.

Já tive outros blogs nos quais deixei durante muito tempo as palavras falarem por mim, mas agora gostaria de ter o prazer de lê-los e com isso fazer com que mais e mais pessoas os leiam.

No dia 1º de Março estarei colocando em votação os Blogs que mais participarem. O ganhador terá um Menu no blog durante 30 dias para divulgação do mesmo.
Lembrando que os blogs já estarão sendo divulgados juntamente com os posts.

Sugestões serão bem vindas.

Aguardo suas palavras!

Forte abraço!

Ҝค ღ

Purple disse...

O essencial é mesmo invisivel aos olhos.
Adorei o texto
beijo (:

Por entre o luar disse...

=) as melhores coisas são aquelas que não se vêm...

beijinhos.. adorei ;)

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Uf! É quase como se tivesse sido eu a sentir o "sonho". Lê-se com muita intensidade, há um apelo muito grande pela e na escrita :9

Afonso, decididamente tens de apanhar o Prémio Lobinho e/ou o Sair das Palavras que ofereço a blogues que pelas suas diferenças me cativam e merecem a honra, humilde mas com imenso gosto.

Ainda estou a respirar fundo deste post :)

Abraço amigo

Alexandra disse...

Sou tal e qual o irmão mais velho. beijinho *

Brid disse...

Eu antes não acreditava em Deus, não acreditava em nada que não fosse visível e palpável, exactamente pelas mesmas razões do irmão mais velho. Hoje sou uma pessoa em transformação, não por estar lentamente a acreditar num deus, mas sim por cada vez mais acreditar no amor e no poder da Natureza, na bondade dos Homens e na força de vontade que existe em todos nós.

Há muito mais do que conseguimos ver com os olhos. Só temos que aprender a abrir a mente e o coração.

Beijinho*

Margarida' disse...

O sentimento que transpões para as tuas palavras é de todo fascinante. Adorei ler este teu sonho *

Leto of the Crows disse...

Adorei o texto e a mensagem que qualquer um pode absorver no seu ente. Se acreditasse na perfeição, diria que estava perfeito ^^

Marta Rosa disse...

Adoro ler-te *

pinguim disse...

nunca podemos ver o que mais nos faz falta. seria fácil, muito fácil

Anónimo disse...

Este texto prova que realmente acreditar no que não se vê é algo que não está errado de todo. Tantas vezes, que ao entrarmos num estado de racionalidade, questionamos o porquê de acreditarmos em coisas que não vêmos...Talvez porque possivelmente seria mais simples ter a prova concreta de que acreditar e ter fé é correcto e não é nenhuma parvoíce. Isto abre-me os olhos para algumas coisas...
Adoro este talento enorme que tens=D
Acho que teres capacidade de fazer alguém reflectir devido ao que escreves é algo fenomenal!

MiLLion

Catarina disse...

Brilhante Afonso.
Um beijinho.

m.sunshine disse...

não há uma simples palavra neste texto, que não em faça viajar.

Joana disse...

Deixei-me levar ao ler este teu texto.. Está fascinante!
Beijinhos*

Joana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angel disse...

Que lindo texto... Confesso que me emocionei com ele. Uma ajuda dada de bom grado, a humildade em aceitá-la, um sorriso que quebra barreiras e derruba muros, o sentimento que muitas vezes é mais real que uma montanha...

Lindo, Afonso. Parabéns!