segunda-feira, 6 de junho de 2011


"É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve."
Victor Hugo


Quinta-feira, 7 de Abril de 2011


     E se o mar falasse? E se as ondas tímidas do rio não fossem senão murmúrios dirigidos às suas margens? Como se mar e rio, lagos e riachos falassem com a terra em que divagam... E se as gaivotas que sobrevoam este mesmo rio gritassem agora ao mundo a sua vontade de me vir falar? - Se as gaivotas falassem e os rios e os mares, a composição da orquestra de vozes, sons e magia seria, de tal forma brilhante, que tudo o que fosse auditório nas margens, abraçaria deliberadamente a vontade de se tornar parte daquela orquestra. Se eu pudesse falar e aplaudir às margens deste rio o entusiástico espectáculo de que usufruo, suplicaria, com certeza, para que me fosse presenteada a franquia de me incorporar e fundir na Natureza, que pudesse eu fazer parte deste universo infindável de sensações. Mas se as ondas do rio falassem, e as gaivotas, e o vento, certamente saberiam que é tão minha esta vontade de me sucumbir em água do rio e desaguar na foz, para que pudesse eu percorrer o mundo pelos oceanos. Deixar de te sentir tão grande defronte de mim ou, talvez, deixar de me sentir tão pequeno defronte de ti, ser o que em sonhos posso ser, tão grande como tu, rio Tejo, grande como hoje te vejo, de onde te vejo. Componho, então, estas palavras às tuas margens, ao sabor das mornas aragens de Abril.

Afonso Costa

7 comentários:

Moonlight disse...

Afonso,

Hoje com as tuas palavras fizeste-me dançar suavemente nas aguas desse tambem meu, rio Tejo,que tanto adoro apreciar.
Realmente por vezes não sabemos dár valor ao que a natureza nos presenteia todos os dias...

Bj com luar

Catarina disse...

Este teu texto esta absolutamente belo e eu já expressei a minhao opiniao sobre ele noutro sitio, mas é sempre bom ler novamente as tuas palavras dignas de uma verdadeira arte .

Beijinho *

AF disse...

Se o mar falasse teria tanto mas tanto para nos contar.

Extraordinário, como sempre.

Genéve disse...

Lindo, deu-me vontade de ir até Belém. Obrigada pela existência deste blog, acho-o fantástico.

Maria disse...

Não te vou agradecer - um "obrigada" parece-me sempre tão pouco ao lado do quão bom é saber que gostaste. E digo-te desde já que tens aqui um grande blog. Escreves, definitivamente, de um jeito encantador.

Paula disse...

Sim, algumas pessoas desiludem-nos mas as que valorizam essa subtil entrega e retribuem da mesma forma fazem com que valha a pena apesar das que mostram o contrário. Até porque acho que cada vez mais é nessa 'entrega' de pedaços de nós que reside a felicidade. (:

Quanto ao teu texto: Talvez o mar, rios e até mesmo não falem mas por vezes de tanto os namorar quase os sinto sussurrarem-me ao ouvido...e gosto de tanto de passear, ficar e ouvir e sentir o mar, as arvores e o vento.

Ana disse...

Ai, mas isto para estes lados não está nada fácil (:

Obrigada e eu a ti :)