segunda-feira, 21 de março de 2011


O que direi neste texto, destas palavras em diante, estará destinado ao mais absoluto cepticismo para aqueles que a quem a realidade objectiva lhes basta ou, na mais provável das hipóteses, a quem sente a sua percepção de autoridade e de auto-controlo ameaçada.

    Platão dizia que "peças vulgares não têm destino". Machado de Assis achava que o destino era como os dramaturgos; não anuncia as peripécias nem o desfecho. De La Fontaine, por sua vez, consciencializava de forma absolutamente extraordinária o caminho dos nossos erros, afirmando que "Muitas vezes encontramos o nosso destino por caminhos que enveredamos para o evitar." Por fim, William Shakespeare confrontava os radicalismos, situando a sua crença entre os cépticos e os demasiado crentes. Para ele, "Há instantes em que os homens são senhores do seu destino." Na verdade, o que aproxima todos estes senhores é a sua crença no destino, o tão contestado "maquinismo" que o Inconsciente contesta em forma de defesa da integridade do nosso ego. A simples crença da inexistência de tão complexo mecanismo de regulação das nossas vidas é uma afronta à liberdade individual de cada um e, portanto, um mecanismo de introjecção duma incapacidade muito específica de cada um para regular as suas acções e a sua vida. Sem muito avançar neste assunto, não deixa de ser curiosa a postura rígida que cada um de nós assume sempre perante um assunto que nos é "ameaçador". Uma ameaça que, no entanto, nos dá pistas da sua existência a cada instante. Como se, efectivamente, jogássemos com as cartas que a vida nos ofereceu. Porque a rejeitada Sorte e o malogrado Destino não podem ser desconsiderados em prol do talento, da inteligência, entre outros factores. Porque o facto de eu perder um filho, uma mãe, um pai, ter sido assaltado e ainda esfaqueado não impede que detenha todas essas referidas características. Mas não posso negar: estava no local errado, à hora errada, no corpo e realidade errada. Tentei passar por cima das mortes que me "calharam nas cartas", refiz a minha vida depois do assalto e depois de ter estado em coma (realidade que não escolhi), consegui recuperar. No entanto, um dia, a minha mulher estava a sair de casa, foi atropelada e morreu imediatamente na sequência do atropelamento. Joguei com as cartas que me foram dadas para a mão, fiz o que podia com elas. Mas não pude, efectivamente, escolher as cartas. Era aqui que William Shakespeare queria chegar.
    Acabei de escrever uma opinião e não um facto científico, pelo que a susceptibilidade à recusa deste conceito de "Destino" nos esquemas cognitivos subjectivos e individuais é grande. Todos nós preferimos acreditar que somos capazes, que temos tudo sobre controlo e essa é a  grande "almofada" para a nossa personalidade constantemente enfraquecida pelos acontecimentos do dia-a-dia. Mas o destino dá as pistas da sua existência. E hoje foi -me dada a prova derradeira.

Afonso Costa

3 comentários:

Jessica disse...

Compreendo perfeitamente o que queres dizer, tenho sentido essas ditas manifestações da existência do destino. Gosto muito do que escreves e como escreves :)
E deixa-me dizer-te que me diverti a ver posts antigos para ver as tuas fotografias, são fantásticas :)
beijinho Afonso *

Moonlight disse...

Afonso,

Fabuloso texto e reflexão a tua.
Escreves com alma e sentimento sobre um assunto bastante complexo e de variadissimas opiniões.
O Destino...o que nos espera....nunca o saberemos por muitos caminho que tomemos só sabemos do destino, uma metade a que escolhemos,a outra será sempre uma incognita!

Bj com luar

Paula disse...

Entendo o que queres dizer até porque há bem pouco tempo pensava que o destino não existia e o futuro está nas mãos de quem o traça - nós mesmos.
Mas ao observar minuciosamente traços da minha vida notas que por vezes existem demasiadas coincidências actos e acontecimentos que acontecem atrás uns dos outros e que te conduzem a caminhos e vivências que há segundos atrás não faziam sentido, mas fazem de uma extraordinária.
'Porque tu podes jogar, mas não escolher as cartas'