quinta-feira, 17 de junho de 2010


"É difícil dizer o que traz felicidade. A pobreza e a riqueza, por exemplo, já fracassaram."
Kim Hubbard

Foto: Cabo Verde, 2010
Ainda me lembro...
     «Ainda me lembro, vagamente, das paredes de cimento sem cor do nosso quarto. O nosso quarto que era também a nossa sala, onde nos sentávamos no chão para comer - se houvesse o que comer -, em silêncio... Onde esperavas por ele, todos os dias, enquanto trabalhavas, enquanto sofrias impiedosamente para manteres a nossa família unida e o tecto que nos abrigava do infernal calor do Verão e das tormentosas chuvas de Inverno que devastavam o que plantávamos para comer. Lembro-me que mudavas de emprego como quem muda de camisa e que, por diversas vezes, vinhas de braço dado a um homem, diferente na maior parte das vezes, e nos mandavas sair de casa. De dentro de casa pareciam vir gritos e gemidos, e das primeiras vezes, quando o homem saía e eu entrava em casa, estavas esvaída em lágrimas... Lembro-me dos dias em que nem um pedaço de pão tínhamos para comer e, por efeito, de noite me obrigavas a sair de casa, receoso e amplo de ansiedade e apreensão; sabia que se roubasse um pedaço de algo para que saciasses a fome, corria o risco de ser apanhado por alguém, de ser levado pela polícia e de nunca mais retornar a casa. Não obstante, se voltasse, sem o pedaço de pão que me exigias, arriscava-me a mais uma das muitas tareias que me davas, apregoando em voz alta que precisavas de comer para que pudesses continuar a trabalhar, para que no final todos fôssemos recompensados e pudéssemos também alimentarmo-nos. A tua precária paciência e força que do amor se transformou em ódio - e, por fim, em desapego e indiferença -, para que pudesses suportar a dor, foram as minhas marcas. (A tua dor, mãe, a minha dor...) Lembro-me de esperares por ele, todas as noites, de cabeça esgueirada à janela, olhando a lua... Nem sei se, após tanto tempo, ainda pensavas em alguma coisa em concreto. Penso hoje que conservavas, já sem consciência do que fazias, o mesmo ritual, noite após noite, quando ainda pensavas com o coração, até que, deste deixou de jorrar qualquer tipo de sentimentos e nunca mais te vi voltar àquela janela. 

     Lá fora caíam civilizações mortais ante a sucessão de novos impérios, a vida continuava sem que o tempo parasse, mas para nós a realidade era outra. O tempo há muito que tinha parado, desde que o pai tinha saído uma última vez pela porta de casa e não mais voltara. Lembro-me de te perguntar 'Mãe, quando volta o pai?', e no receptáculo ofensivo do espanto, ver os teus olhos fervilharem de ódio num ímpeto de pouca racionalidade. Não obtive resposta à pergunta, ao invés, as cicatrizes que ainda hoje me percorrem o corpo. E lembro-me de como eu fechava os olhos e me escorriam as lágrimas por não entender que raio de vida era aquela. Lembras-te mãe? Daquela triste canção que magicavas aos meus ouvidos até que eu adormecesse? Uma canção triste sobre o amor? O amor, que já não te corria nas veias, onde agora o sangue percorria espesso e cruel, dilacerando o teu coração a cada dia da tua existência... Não falavas nunca a verdade e não tinhas em ti qualquer valor, já nem compaixão, muito menos afecto. Não éramos mais precários de dinheiro do que de sorrisos e valores que inexistiam. Eras pobre de essência e o teu coração tinha secado tal e qual uma fonte que deixa de jorrar água. E eu não te culpo por isso, porque foi isto que a vida te deu. E a nós... Tão somente, retalhos de uma vida que eu não pedi, um pedestal de memórias que não se apagam simplesmente; sangue, lágrimas e suor simultaneamente.»

Afonso Costa

9 comentários:

maria eduarda disse...

está incrível Afonso. Adorei, simplesmente, a forma como retrataste tudo, era como se estivesse lá, a viver aquilo. Parabéns.

Bridji disse...

Nao é preciso dizer mesmo nada, já sabes a minha opinião acerca da maneira como escreves. Fiquei sem palavras, mais uma vez :)

Alguém... disse...

Adoro sempre ler o que escreves, parabéns*

Carmen Beatriz disse...

lindo ^.^, acho q nunca li nada assim! parabéns!

beijo*

filipa disse...

Há memórias que nunca se apagam *

*flor* disse...

Foi como se estivesse 'lá'... Existem cicatrizes que perduram no tempo e que de quando em vez ainda sagram.

Escreves incrivelmente bem, parabens. =) *

Catarina disse...

Simplesmente amei afonso e fiquei mesmo sem palavras, a certas memórias que nunca se apagam e é com as memórias que também crescemos como seres humanos.

Beijinho *

http://abebedorespgondufo.blogs.sapo.pt/ disse...

Muito bom.

Nameless trying to be someone. disse...

tu deixas a tua marca no mundo com escritos como estes.