sexta-feira, 25 de junho de 2010


Continuação...

«Bem sei que todas as palavras que te escrevo ficarão escritas no mar para todo o sempre. Não sei se as leste, mas caso as tenhas lido, certamente terás reposto a carta dentro da garrafa e a atirado de novo ao mar. E passam os dias e as noites, os meses e os anos, e eu pergunto-me: Quanto tempo mais demorará a passar o tempo? Porque passam aqueles dias em que se vendem sorrisos e ainda sobram, mas não os suficientes para aguentar aquelas noites... Aquelas noites em que o tempo parece perder-se lentamente em si e não encontrar meio de sair da mesma situação. Não serão certamente noites em que apenas o tempo se perde, tal que eu também me perco, por entre suores e dúvidas, medos e incertezas, e aquela vontade de receber um sinal de que estás viva e que ainda sou alguma coisa para ti... Torna-se extremamente absurdo pensar que te amo desta maneira tão somente depois de me renegares, pois agora sinto verdadeiramente a tua falta, e não sei se isso será desumano, ou se será mesmo amor. Mas o tempo passa, os dias a correr, as noites vagarosamente, o coração aguenta dolorosamente, e o fiel lado racional ajuda a manter o equilíbrio... E enquanto isso, tu vives a tua vida, alheada da minha existência. Na noite passada choveu aqui, torrencialmente, e desta vez, em vez de apareceres na minha mente, como sempre sucede, apareceste fisicamente. Eu esfumaçava lentamente ao som da chuva e de uma poderosa música instrumental que o aparelho de som fazia chegar aos meus ouvidos, e me enchia a alma de sensações explosivas. Então dirigi-me a ti e não consegui sequer dar-te um beijo, ao invés, esperei que tu o fizesses. No auge da minha vontade de te roubar um beijo, como sempre fiz quando quero com quem quero, acabei por não o fazer, e tu também não. E nesse momento acordei. A chuva continuava a cair, e tu já te tinhas ido embora. Nunca ali havias estado, certamente, mas deixaste um rasto de lágrimas e de dores no peito, como se tivesses estado realmente ali naquela noite. É por isso que esta é a última carta que te escrevo, pois no momento em que a escrevo, já não sei quem és, mas sei já quem eu sou. Ao passo que te perdi, reencontrei-me, e isso vale mais do que alguma vez do valeste para mim. Não receberás mais notícias da pessoa que conheceste, talvez sim, recebas notícias de uma nova pessoa. Porque eu nunca sou um só, porque eu necessito constantemente de me metamorfosear como se uma lagarta eu me tratasse, porque eu preciso de novos ventos, como se eu fosse uma força da natureza, e talvez por isso, apenas de um novo ser terás notícias, não de quem conheceste, não de quem dizias amar. Parti porque agora sei que nunca mais te terei, e tu nunca mais me terás, pois se há pessoa que mais se apega à liberdade sou eu, e porque sei, certamente, que nesta minha longa viagem, não mais sentirás a minha falta como da primeira vez. Como uma vez te disse, "tudo acontece por uma razão", e provavelmente a minha missão contigo está cumprida: ficar do teu lado quando mais precisaste. Mas agora está na hora de me ir... Que esta carta faça boa viagem e chegue, se tiver que chegar, ao seu destino. Eu parti, e se perguntarem por mim, diz-lhes que voei.» 

E atirou com toda a sua força a garrafa, que se perdeu no horizonte, como se tivesse evaporado. Nunca mais se soube nada dele, nem dela, muito menos da carta dentro da garrafa. Dizem que o amor é eterno, e no caso dele, é verdade, pois nunca deixou de amar as pessoas que um dia amou demasiado. Mas todas as histórias de amor são iguais e esta não foi excepção. Ele partiu de facto, e quando perguntaram por ele? Hum... Disseram que tinha voado... e que nunca mais voltaria!

Fim ? Não... Não existem fins...

Afonso Costa

13 comentários:

filipa disse...

Foi sem duvida das histórias sem fim mais bonitas !

Catarina disse...

A história é mesmo muito bonita
Adorei

Paula disse...

A tua escrita está para mim como o chocolate...sabe sempre a pouco porque se deseja sempre mais. (:

Mariana disse...

Juro que está linda *.* Escreves tão bem :$

Bridji disse...

Nao existem palavras que descrevam este texto, eu pelo menos ja nao as tenho. Está lindo, como todos os outros *

*Ariel* disse...

Claro que és uma força da natureza, e como tudo o que é natural creseces, evoluis, sobretudo transformas-te (é sem dúvida o melhor verbo para descrever o nosso crescer, "transformar").
E este grande amor só é superado pela música que adoro dos artic monkeys e puseste aqui :D

ehehe, boa viagem, que enredes por novos e excitantes caminhos*

Genéve disse...

"Mas o tempo passa, os dias a correr, as noites vagarosamente, o coração aguenta dolorosamente, e o fiel lado racional ajuda a manter o equilíbrio..." Um grande escritor.
Este conto faz lembrar As Palavras Que Nunca Te Direi.

Por entre o luar disse...

Brutalissimo Afonso =)
´
Amamos demais mas amamos verdadeiramente.. eu prefiro sofrer sabendo que ao menos soube amar de verdade *

Essas pessoas so nos ensinam a ser melhores ao contrario do que pensam, destroiem-nos menos do que julgam e fazem-nos dar valor a nos propios*

Anónimo disse...

admiro a tua história :)

Gabs disse...

Está muito bonita Afonso, Parabéns :)
encantou-me.
Beijinhos

Mar disse...

Isto nao vai ser nada apropriado acho... Mas tu és mesmo bonito (nao estou a falar de estetica). Sempre gostei de ti.
ahahahah agora é que reparo que nao sou a unica rapariga a gostar. Nem estou la perto :P
Fica bem oh afonso (que é leao de signo e tambem acho que é por isso que é assim, sempre me dei be, com leoes, nao, nao sou nenhuma maluquinha dos astros ahah)

Mara disse...

Colei :O

quando eu acho que já disseste tudo de belo fazes isto: surpreendes outra vez.

Mariana disse...

Umas das mais bonitas que li *.*