sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

“Quem sou eu e como acabará esta história?”
Nicholas Sparks, in O Diário da Nossa paixão

Imagem: DeviantART®

O céu já se levantou e aproximo-me junto à porta de trás do comboio, porta de vidro que se embaciou com o bafo de uma vida passada. E olho para trás, vendo tudo aquilo que já passou por mim; o que não vejo já está tão longe que me esqueci. Vejo tudo o que vivi, tudo o que não vivi (oportunidades perdidas), porém também muitas oportunidades que agarrei com toda a força das minhas mãos, da minha convicção… É impressionante o poder que as oportunidades perdidas têm sobre nós, a forma como, quando as relembramos, nos fazem sentir remorsos. A vida é feita de oportunidades, mesmo aquelas que perdemos. Porém, são mesmo essas as que mais nos fazem aquelas pequeninas “dores de barriga”. Oh como pude deixar escapar? Fecho os olhos por momentos e depois viro costas à vista traseira, que tantas recordações me traz, voltando a olhar a carruagem de frente, e todas as pessoas que ainda fazem parte dela.
A minha vida não tem sido o percurso naturalmente esplêndido que eu quereria que fosse; mas foi certamente melhor do que aquilo que eu imaginava, o que vai dar, até agora, um saldo muito positivo. Calculo que tenha acabado por se parecer com o tempo que está lá fora: períodos honestamente estáveis, seguidos de tempestades, ou então de um magnífico período iluminado por fortes raios de sol, por vezes períodos de céu nublado com algumas abertas, dia sim, dia não (e é assim que agora o tempo se apresenta!). Tem sido um bom presente, já que nem toda a gente se pode gabar do mesmo; tem gente por aí que tem mesmo razão em lamentar a sua vida (e alguns que não lamentam, é de louvar!).

Percorro as janelas da minha carruagem, ao passo que vou relembrando a minha vida, ao passo que vou vivenciando novas paisagens. Passámos agora por uma nova estação, de onde entraram novas pessoas e saíram outras. Saiu uma pessoa que eu conhecia… Mais que isso, provavelmente. E apenas digo provavelmente, porque nunca sei ao certo a razão pela qual uma pessoa sai da minha vida, por mais que pense que tenha sido importante para ela, por mais que essa pessoa tenha sido importante para mim. Por vezes é uma grande mentira… Mas o que é a mentira, se ao certo não sabemos qual é a verdade...? E "ontem" saiu uma outra pessoa que me era importante. Saiu sem dizer nada, e a última palavra foi minha. Então sinto a tua falta, mas não sinto aquele friozinho na barriga, porque quem perdeu a oportunidade foste tu. Ou talvez simplesmente tenhas agarrado outra. Mas eu não perdi a minha, quando me a deram. Já lá vai um ano, e sempre que passo por aquela estação sinto saudades tuas; cada vez menos.

Ontem, hoje, amanhã… Sairão sempre pessoas da nossa vida, seguem por caminhos diferentes, saem da nossa carruagem, para outra, ou então mesmo para outro comboio; nunca mais as veremos. A primeira pessoa que saiu, naquela velha estação, eras tu avô. E saíste antes de te conhecer. Depois os meus dois bisavós. Eu era pequeno e felizmente não me lembro de praticamente nada; paisagens tão distantes que já não se encontram ao alcance da minha vista.
Mas hoje está uma outra pessoa a sair da minha vida, hoje e certamente que amanhã sairá uma outra. Mas quem serão desta vez? Quem sabe não ganho coragem de enfrentar as respostas que vou ouvir e vá perguntar a cada uma das pessoas que ainda se encontram na minha carruagem qual delas quererá sair na próxima estação… E por hipótese, só por hipótese, talvez me consiga preparar psicologicamente para isso.

9 comentários:

Mai disse...

Afonso eu adoro essa trilha.

Bem, hipóteses...
Cógitos...
Duvide e sem certezas, a priori, tudo é, apenas, hipótese.

Muito,muito carinho,

Mai

disse...

gostei : )
estive a ver os teus textos , e adorei *.*
beijinhos

baby piggy disse...

As pessoas podiam era pensar um bocadinho mais nos outros, porque mesmo seguindo caminhos diferentes, podem estar junto de nós.
Egoísmo humano é estranho mas real..
Oh, eu percebo muito. (não me saiu nada de jeito o comentário, mas esta cabeça, enfim.) *

Alexandraa disse...

"Oh como pude deixar escapar?", uma pergunta bastante impertinente, mas que consegue ser avassaladora. Ou pelo menos, falo por mim. Quantas foram as vezes que a pronunciei. Mas como disses-te, as oportunidades perdidas são peças que completam o puzzle da nossa vida, têm que existir.

E quando dizes que as pessoas saem "da tua carruagem" e que nunca mais as vês, não significa que estejam esquecidas, certo?

^^ Mais um texto surpreendente!

Beijinho

baby piggy disse...

Sim :D voltei com a minha energia! Cá para mim isto era sono a mais ahahah (não, não era, mas assim pelo menos rio-me, de outra maneira só me vou abaixo!).
Afonso, não cheguei a dizer, mas as fotos estão espectaculares!
Nhai *-*

baby piggy disse...

Ora, nada! Não creio que a palavra certa seja recompor, mas sim equilibrar. A tempestade já passou e levou com ela muitas dúvidas. Mas mesmo assim, ainda há muitas perguntas, talvez demasiadas. *

V disse...

a vida é feita de chegadas e partidas. um belo texto embalado numa bela melodia *

Catarina disse...

As oportunidades perdidas que tanto doem, o quanto custa a saída de algumas pessoas.
Se soubesses o quanto me vi nesse texto, saídas da carruagem,
também eu devia ganhar coragem e 'enfrentar as respostas que vou ouvir e vá perguntar a cada uma das pessoas que ainda se encontram na minha carruagem qual delas quererá sair na próxima estação'
Obrigado por este texto, pelos exemplos, por tudo, parabéns, espectacular mesmo!

Beijinhos *

marionete disse...

Maravilhoso mais uma vez. Nunca estamos preparados para que alguém saia da nossa carruagem, eu acho.
Beijinho *